Skip to content

Quando o espírito do Natal tocou meu coração

Quando o espírito do Natal tocou meu coração
Árvore do Washington Square Park (arquivo pessoal)

Eu não gostava do Natal. Achava uma data muito triste e melancólica. Parecia que todo mundo ia morrer e estávamos nos despedindo.

Com o passar do tempo, comecei a acreditar que o Natal nada mais era do que uma invenção que visava somente os lucros e que a figura do Papai Noel não tinha nada à ver com o nosso clima tropical.

Pior que isso: incentivava as crianças a serem consumistas e corruptas com essa história de “se você for boazinha o ano todo, vai ganhar presente” (o que era uma grande mentira porque eu era uma criança boazinha e nunca ganhava o que pedia). Logo então desde cedo, percebi que tudo isso era balela.

Achava também que essa era uma época das pessoas serem hipócritas porque onde já se viu ser solidário com os mais necessitados somente em uma época do ano? E o restante dos meses, voltariam a ser invisíveis?

Sem mencionar o dia do nascimento de Jesus em Dezembro, que essa data só poderia ser invenção da igreja católica… E quem disse que Jesus era loiro de olhos azuis? Essas e uma infinidade de perguntas que todo adolescente observador e rebelde faz ao questionar o status quo da sociedade em que vive.

Os anos se passaram e nada aconteceu que pudesse mudar meu olhar sobre data festiva até o dia que eu fui fazer um intercâmbio nos Estados Unidos e pude experienciar o inverno no mês de Dezembro.

“Ahhh que legal! brincar com a neve! fazer boneco na neve! uhu!” – Era a primeira vez que iria sentir o frio e fazer todos aqueles clichês que a gente vê nos filmes.

E foi aí que uma nova perspectiva se abriu diante de meus olhos.

Howard

beggar-on-the-bridge-1310452-639x426
Fonte: Free Images

O frio (daqueles muito frio, abaixo de zero) é um fator determinante que faz com que as pessoas se tornem instropectivas e no hemisfério norte, ele cai justamente na época de fim de ano.

É no inverno que a natureza obriga a nos recolher e nos aconchegar em casas de madeira, vedar as janelas, ligar o sistema de calefação (porque se você não fizer isso, você pode literalmente morrer de frio) e viver dias mais curtos e noites longas, o que de novo, dá uma enorme melancolia e aquela impressão de que todos estão se despedindo.

Foi aí que percebi que enquanto eu estava em uma casa de madeira, com janelas vedadas e com perfeito sistema de calefação – quentinha e protegida – outras pessoas estavam nas ruas, sem um lugar para morar e passando um frio de doer os ossos. E em NY, o número de pessoas morando nas ruas é alarmante e aquilo mexeu muito comigo.

É claro que moradores de rua existem em todos os países e por inúmeros motivos, mas na circunstância da qual me encontrava, aquilo me doeu tremendamente.

Como é que eu iria conseguir dormir em paz sabendo que lá fora existem pessoas passando frio de doer a alma?

Isso começou a tomar uma boa parte dos meus pensamentos quando meus olhos se encontraram com os belos olhos azuis de Howard.

eye-1512197-640x480
Fonte: Free Images

 

Eu subia as escadas da 68st com a Lexington em direção à escola quando me deparei com um senhor que deveria ter uns 80 anos, vestia uma jaqueta fina, um cachecol vermelho e em suas mãos trêmulas, segurava um copinho de café sem nenhuma moeda dentro.

A imagem por si só já era comovente mas quando eu olhei nos olhos dele… eu vi dor. Senti uma pontada no meu coração, não sabia se continuava o meu caminho, se parava pra falar com ele, mas como nunca havia conversado com homeless, fiquei sem jeito de chegar… e continuei meu caminho.

Fiquei com aquela imagem na cabeça por vários dias até que na outra semana, indo em direção ao curso, lá estava ele de novo, com a mesma jaqueta, o mesmo cachecol e dessa vez, algumas moedas no copinho.

Não sei dizer porque, mas passei por ele umas três vezes sem conseguir reunir coragem pra falar (mas deixava algum dinheiro com um sorriso, do qual ele respondia de volta) . Cheguei a treinar em casa como é que iria começar a conversa, o que iria dizer, mas não sei explicar, sempre que o via, meu coração doía e minha voz travava.

Até que um belo dia, tomei coragem e perguntei como ele iria se proteger da enorme nevasca que estavam anunciando. Perguntei se ele tinha um lugar pra dormir e ele respondeu dizendo que dormia em um porão no Queens, que o dinheiro que ele arrecadava com as esmolas dava pra se alimentar e que estava com uma doença no coração, faziam poucas semanas que havia saído do hospital.

DELIVERY BOXES

Quando o espírito do Natal tocou meu coração

Passamos a conversar mais vezes e toda sexta feira, levava uma sopa de frango quentinha (minha favorita) e entrevaga à ele.

A meta era ter coragem de convida-lo a ir em uma Deli e tomarmos a sopa juntos. Queria muito saber como ele enxergava a vida, ativar lembranças sobre a NY das décadas passadas… eu tinha um profundo interesse na história dele e adoraria poder ouvi-lo.

Percebi que uma das coisas que os moradores de rua mais precisam, além de um teto e comida, era de atenção. E foi aí que me inscrevi numa ONG que ajudava moradores de rua.

O trabalho consistia em fazer entregas de caixas. As pessoas pagavam um valor online e dentro das caixas haviam ítens de higiene e acessórios de frio (luva, gorro, meias) entre outras coisas.

O meu serviço era entregar as caixas aleatoriamente, em grupo, não sem antes perguntar se a pessoa gostaria de receber (muitos não querem ajuda e é preciso respeitar).

Foi um trabalho tão maravilhoso porque foi onde pude perceber que as pessoas mais simples, mais tem pra dar.

give-1214474-639x426

Um dos casos que mais me chamaram atenção, foi de um senhor maltrapilho e completamente desdentado que estava absorto na leitura de uma revista com crianças africanas desnutridas na capa. Quando chegamos pedindo licença, ele levou um susto, entendeu tudo errado a nossa proposta, abriu o bolso do casaco e nos deu uma nota de um dólar.

Nós nos entreolhamos e o líder do meu grupo disse: “Não senhor, nós não queremos dinheiro, nós estamos perguntando se o senhor quer receber ajuda”.

“Ahh, desculpe!” – disse ele rindo – “Estava tão entretido com minha leitura que por um momento achei que vocês estavam pedindo ajuda pra essas crianças aqui” – e apontou as crianças da capa da revista. “São elas que mais precisam de ajuda, não eu. Eu sei me virar por aqui! mas elas não, elas são crianças! Precisamos salva-las!”

Acabamos o convencendo a ficar com a caixa e conversamos mais um pouco. Acho que meu grupo e eu jamais esqueceremos aquele rosto.

Foram tantas histórias e exemplos de generosidade que meu coração acabou entrando por um caminho e compreendendo as palavras daquele que veio apenas para nos ensinar a Lei máxima universal.

JESUS

Manger Scene

 

Só quando passei a sentir o mesmo frio que aquelas pessoas sentiam, o mesmo sentimento de estar só em um mundo tão frio e individualista e não ter ninguém com quem se conectar, foi que percebi o que é se importar genuinamente com os outros.

Foi como as luzes que se acendem no natal – a Luz de Cristo se acendeu em mim. É um amor de compaixão, de querer abraçar e dar carinho, de cuidar, de querer ver sorrir, de dar atenção e fazer a pessoa sentir-se especial, sem exigir absolutamente nada em troca.

É como o fogo de uma vela. Alguém acende a sua e você passa a sua chama para outra, que passa pra outra e quando vemos, formamos uma luz linda e forte – e descobri que é essa luz que nos sustenta nas dificuldades da vida.

christmas-candle-2-1567369-640x480

É ela da qual chamamos de Esperança. É ela que dá Paz. É ela que ilumina o fim do túnel. É ela que mora o nosso ser. Ela é tão forte que posso sentir que tem vida. Eu sei quando ela está ativada, forte, fraca ou ferida. É ela gera o auto-amor para que você possa transmitir o mesmo sentimento para quem se perdeu e está no caminho escuro.

Eu queria espalhar essa Luz de alguma maneira e o jeito que encontrei foi enviando cartões de natal para as pessoas que gostava (queria acender a Luz delas também), mas as palavras não descrevem exatamente o que esse sentimento significa (ou pelo menos não sabia expressa-lo devidamente).

Outra forma que encontrei, foi colocar luzes do lado de fora da minha janela. E montar uma árvore de natal e colocar uma estrela na ponta. Começar a entender os símbolos que até pouco tempo atrás não significavam nada pra mim.

E aí que eu percebi: o espírito do Natal tocou meu coração.

Vídeo sugerido: Os simbolismos do Natal – canal Nova Acrópole

Mas cheguei a conclusão que as pessoas talvez não sentissem o que eu estava sentindo porque essa Luz que o natal acende é individual e só a pessoa pode permitir que a Luz dela seja acesa. Cada um tem o seu momento e de novo, precisamos respeitar isso.

Então aprendi que o que precisava fazer mesmo era procurar manter a chama da minha Luz acesa durante o ano todo e compartilhar com os irmãos que estão com sua Luz apagada, e que o mês de Dezembro é a época de renovar essa chama e celebrar nossas velas acesas na noite de natal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

 

Quanto ao Howard… não pude convida-lo para almoçar comigo no Diner, ele não estava mais no mesmo lugar que costumava ficar. Nem na outra sexta, nem na outra… na verdade, nunca mais o encontrei.

Sempre que me lembro dele, agradeço mentalmente porque foi ele que mesmo sem ter nada, me deu muito. Foi ele que me deu a oportunidade de acender a chama do meu coração.

Definitivamente Natal é uma data que mexe com todo mundo. Para algumas pessoas, ela não significa nada, para outras, tristeza e para outras, a oportunidade de olhar para o lado.

Tanto faz se é calor ou frio, se Jesus é loiro ou moreno, se nasceu em Dezembro ou Março… o que mais importa é a mensagem que ele nos deixou – amar o próximo como a si mesmo.

Será que um dia iremos todos poderemos compreender essa máxima?

Desejo de todo coração que a consciência crística renasça e se faça presente em todos nós!

 

Ah! e não deixem de me seguir no Spotfy!

 

Criei um setlist das músicas que escutava nos natais de NY!

Tem Jazz, anos 50, 60… tá uma beleza! Perfeito para escutar com a família e amigos nessa noite especial!

Um beijo enorme e tenham todos uma linda festa!

 

Amina

 

 

 

4 Comments

  1. Ronaldo Ronaldo

    Belo artigo Dê! parabéns pela sensibilidade.

    • Amina Mafer Amina Mafer

      Olá Ronaldo!

      Agradeço a visita e ao comentário! Um lindo ano novo cheio de paz, alegrias e amor pra vc e sua família!!

      Beijos!

  2. Jeiele Jeiele

    Dê, me emocionei! É um texto que a gente termina e a história continua na nossa mente. Me comovi muito no trecho do senhor que tirou um dólar pensando em ajudar as crianças na capa da revista, que bom que as dificuldades não endureceram e apagaram o amor que ele tem no coração! E sobre os cartões que vc enviou, fui uma das premiadas a receber ! Parabéns pelo texto, pelas suas vivências e por compartilhar a sua visão de vida, sempre amorosa, conosco!

    • Amina Mafer Amina Mafer

      Oi Je! Obrigada pela visita e comentário!
      Sim, essas vivências foram profundamente ricas e fico feliz em poder compartilhar e até quem sabe, plantar uma sementinha nos corações e mentes dos meus leitores 🙂
      Um beijo enorme!

Leave a Reply