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As 10 lições de vida que aprendi no inverno novaiorquino

Ainda me lembro da primeira vez que vi a neve em New York, parecia uma criança.

Saí correndo na rua pra sentir os flocos no rosto e me diverti em uma guerra de bola de neve com um desconhecido.

Me aventurei em patinar na pista de gelo (da qual não deu muito certo), tirei fotos no Central Park, passei um dia numa estação de esqui… Tudo muito lindo, poético e maravilhoso até chegar uma hora e perguntar: “Ok! quando o calor vai voltar?”

Para alguém que nasceu, cresceu e viveu a maior parte da vida em um clima tropical, ver a neve como turista é uma delícia, mas morar em uma cidade onde a temperatura começa a esfriar no final de Outubro e só melhora no começo de Maio, foi um mega desafio. Juro: dá vontade de hibernar e acordar só depois que os passarinhos anunciarem a nova estação.

Mas apesar das adversidades, consegui tirar lições muito importantes e da qual irei levar pro resto da vida: fiquei mais forte por dentro.

São lições das quais serei sempre grata por ter vivido.

São elas:

1 – Resiliência 

Inverno NYC1
Agora é inverno
e no mundo uma só cor;
o som do vento – Matsuo Basho

“It is what it is” é uma expressão muito falada por essas bandas que traduzindo seria algo como “aceite o que é” ou “aceite o que não pode mudar”.

Não adianta reclamar do vento, do frio, do desconforto – não tem como mudar as estações. Há coisas que não dá pra mudar.

O jeito é procurar encontrar uma maneira de se sentir bem e de não transformar a viagem em problema.

Aproveite o momento! Aproveite a experiência e não se renda à melancolia típica da estação. Tente lidar com a situação da melhor maneira possível.

Lembre-se: logo tudo isso vai mudar porque depois do inverno, sempre vem a primavera 🙂

Resiliência na Psicologia

Na área da psicologia, a resiliência é a capacidade de uma pessoa lidar com seus próprios problemas, vencer obstáculos e não ceder à pressão, seja qual for a situação.

 

2 – A importância da prática de exercícios físicos

Central Park

Foi no inverno que pude perceber que frio, dói.

Se você não estiver vestindo as roupas certas, vai sentir um frio tão surreal que vai sentir os ossos trincando, sua musculatura vai tensionar e seus ombros vão encolher.

Dói até o couro cabeludo. A pele queima, os dedos se contraem e ficam roxos e torça para que sua bota seja forte o suficiente para que nenhum floco caia no seu pé porque senão…

Consegue imaginar como você vai chegar em casa no final do dia? Como vai estar seu humor, sua mente e seu corpo?

Ao exercitar, além de alongar o esqueleto, damos condições necessárias para a musculatura possa se fortalecer. Faz com que o cérebro produza endorfinas, dopaminas e seratoninas que atuam como analgésicos naturais, melhorando a qualidade do sono e reduzindo o stress.

Mas não adianta estar forte se você não cumprir a próxima regra.

3 – Usar as roupas certas 

 Roupas de Inverno nyc2

Nunca saia de casa sem meias grossas, luvas, gorro, protetor de orelha, cachecol e um colete por debaixo do casaco.

O uso de uma segunda pele (roupas de algodão por debaixo da roupa) também é muito importante.

As pernas e os braços podem sentir frio mas é algo suportável, mas as extremidades e o coração precisam estar sempre protegidos.

As marcas “The north face” e “Uniqlo” são marcas que indico para comprar casacos bons e quentinhos (veja essas compras como investimento). Aqui você encontra outras marcas boas também.

Já os ítens de segunda pele, você encontra baratinho em qualquer loja de 0,99 no Queens e Brooklyn.

Aliás, vale a pena pegar o N, R ou 7 train pra ir conhecer a região do Queens, que é onde moro (além de conhecer os ótimos restaurantes da área). Nota: Irei escrever sobre meu bairro em um próximo post 😉

 

4 – Tempo para dedicar-se integralmente aos projetos e estudos

Vista da janela de uma das casas que já morei.

Boa parte dos americanos se dedicam inteiramente aos projetos pessoais ou focam no trabalho para colher os frutos no verão.

Um conhecido meu que trabalhava como freelancer, acordava todo dia 5 horas da manhã, praticava exercícios físicos, trabalhava 10 horas por dia no trabalho normal e depois se dedicava ao seu projeto pessoal por volta das 9/10 horas da noite, indo dormir em seguida.

Ou seja, para que ele pudesse curtir o verão da forma que desejasse, ele trabalhava e estudava 9 meses direto sem descanso e se dava férias de 2 a 3 meses no verão.

É legal conhecer outras maneiras de gerar lucro e ainda conseguir aproveitar a vida e dar andamento nos projetos pessoais, não é mesmo? 

5 – Saber lidar com as noites longas e os dias curtos

Arquivo pessoal
Bethesda Fontain, Central Park (arquivo pessoal)

No inverno, o sol aparece às 7:30 da manhã e se põe as 4:30 da tarde. Ou seja, 7 da noite tem cara de ser 10pm.

Não parece porque não nos damos conta mas a luz solar faz muita falta no inverno.

Muitas pessoas acabam desenvolvendo o transtorno afetivo sazonal, popularmente conhecido em inglês como SAD (seasonal affective disorder) que é uma espécie de depressão que costuma afetar muitas pessoas durante o inverno, principalmente os moradores de países que ficam mais perto dos pólos, já que enfrentam noites muito longas e dias bem mais curtos nessa estação.

Se você perceber que a SAD te atacou, não se preocupe! veja essa lista de recomendações da Time Out Magazine, caso esteja se sentindo meio down nos dias invernais.

Uma outra alternativa é comprar o Sunn Light que é uma lâmpada inteligente com tecnologia led que muda o brilho durante o dia que imita a luz solar.

 

6 – Não ter pressa

Inverno nyc4
Vista da minha rua (adoro essas árvores!)

É importante andar ou dirigir um pouco mais devagar nas ruas, prestar atenção aonde pisa e saber identificar os “black ice”, que é como chamam a camada de gelo transparente congelado na calçada.

Se você pisar a probabilidade de cair é certa, mesmo usando botas com solado grosso de borracha. Experiência própria.

Mas aproveitando o fato onde as pessoas precisam andar um pouco mais devagar para evitar acidentes, fica a pergunta: Pra que tanta pressa?

Eu vejo as pessoas correndo pra cima e pra baixo num desespero tão grande e sempre me questiono se vale a pena viver a vida nessa correria (é a mesma coisa que cortar o carro da frente pra depois encontra-lo minutos depois, no farol vermelho).

Sugestão de artigo: Por que tem tanta correria?

7 – Abraçar novas aventuras e sensações

Esqui em Camelback Mountain

Andar de esqui e snowboard, patinar no gelo, deitar no chão e fazer um anjinho, procurar gravetos pra colocar no boneco de neve, descer de slide no Central Park (ok, esse eu não fiz e morro de inveja das crianças fazendo) e depois no final do dia, ficar perto de uma lareira tomando chocolate quente…

Fazer tudo o que você viu nos filmes e ainda guardar a sensação na memória – não tem preço!

Por isso, não se deixe intimidar pelo frio, proteja-se bem seguindo as dicas #3 e se jogue nas aventuras! 😀

 

8 – Vivenciar o ciclo das estações

 

É emocionante ver que depois de 6 meses de frio, vem a mãe natureza e muda tudo.

E é assim que ela vêm chegando… de mansinho, um verdinho aqui, um brotinho ali e quando você vê, já está numa profusão de cores e muita vida!

O ar é muito mais fresco, os pássaros anunciam com veemência a chegada do equinócio da primavera e é visível que a posição do sol está vindo de uma direção diferente.

Nada é mais bonito do que a chegada da primavera!

Hoje se eu fosse definir o conceito de alegria, diria que é poder ver esse espetáculo tão abundante e riquíssimo, além da transformação gradativa que nos presenteia, enchendo nossos corações de esperança e felicidade.

 

9- Andar sorrindo

Eu tenho uma teoria que se chama “walking like Monalisa” que parte da seguinte premissa:

“já que vamos nos congelar, congelemo-nos com uma cara boa”

Trata-se de uma técnica simples que é andar sorrindo (não o sorriso mostrando os dentes, mas sim um sorriso estilo “Monalisa”, discreto)

Sugestão de artigo: “Monalisa está sorrindo? 97% dos observadores acham que sim”

Quando estiver ventando muito (principalmente se você for esquiar), vai notar que o rosto fica meio dormente, congelado. Ao sorrir “monalisa”, você não só fica mais bonita/bonito como também congela os músculos que sustentam as bochechas.

Além disso, você acaba dando um sinal para o cérebro avisando que está “feliz”e seu bom humor não será atingido.

O momento mais legal é quando você cruza o olhar com a outra pessoa que está vindo na direção oposta. Mesmo que seja de relance, você faz o “Sorriso Monalisa” e ela consequentemente sorrirá também! (não pra você na maioria das vezes, mas depois que passar por você porque o sorriso é contagioso.

Sempre que faço isso, não só chego em casa de bom humor como harmonizo a atmosfera com todos ao meu redor e com o tempo, você expande o “walking like monalisa” em todas as estações (excelente dica na hora da paquera)

10 – Lembrar das pessoas em situação de rua

Assistence for homeless nyc
Caminhão que distribuía alimento e outros tipo de ajuda para as pessoas em situação de rua. Outono/2016

 

Uma das coisas que mais se vê nas ruas de Manhattan é homeless.

São pessoas de todas as idades, cores, formas, nacionalidades e tamanhos em situação de rua. Daí você se pergunta “como essas pessoas chegaram em tal situação?”

Em Nova York, morar na rua é muito mais comum do que se imagina e pode acontecer com qualquer um.

Em Dezembro de 2016, foram registrados 62.674 moradores de rua em New York, incluindo 15.856 famílias com 24.076 crianças, dormindo toda noite nos abrigos da cidade. É um número alarmante. Um aumento de 83% comparado com 10 anos atrás, segundo o site coalition for the homeless. 

Os motivos são vários mas a principal causa é não ter como pagar o aluguel, sendo esse o item mais caro de todo orçamento novaiorquino.

Entre outros motivos está o alto número de doenças mentais graves, problemas com vícios e outros diversos problemas de saúde.

Se mesmo agasalhadinho/a ainda sofremos ou reclamamos, imagine os que não tem aonde morar?

O governo novaiorquino disponibiliza abrigos, faz o que pode, no entanto o número de pessoas é tão grande que muitos deles não conseguem lugar pra dormir. Muitas  dormem dentro das estações dos metrôs, mesmo com temperaturas abaixo de zero.

Existem várias ONGs que trabalham com os moradores de rua, nesse link você encontra informações com os nomes das instituições e como ajudar.

Quer saber como é a realidade nos homeless novaiorquinos? Sugiro assistir aos filmes Shelter”, com Jennifer Connely e “Time Out of Mind” com Richard Gere (em português está como “O encontro”).

Super recomendo!

Recomendações e outras dicas importantes:

  • Tome vitamina D, caso for ficar durante toda a estação.
  • Não se deixe enganar pelo sol. Cheque sempre a temperatura antes de sair de casa e leve os óculos escuros (a luz solar refletida na neve machuca a retina)
  • Hidrate-se (a pele fica toda branca por conta do ar muito seco, convém passar diariamente um hidratante e caso tenha problema respiratórios, um umidificador de ar se faz importante.
  • No primeiro dia de neve tudo é lindo e branquinho mas no dia seguinte vira uma imundície. Nunca entre em casa com botas de neve, ninguém irá implicar se deixa-las no corredor do apartamento.
  • O aquecimento global que é indiscutível. A temperatura de uns tempos pra cá está cada vez mais quente. Nesse inverno de 2017, a temperatura mais fria que houve foi de -12C sendo que nos anos anteriores, a temperatura chegava aos -16C.
  • É obrigatório que casas e estabelecimentos tenham aquecedor, portanto não é complicado sair cedo da cama e tomar banho. Muito pelo contrário, é uma delícia! 
  • Neve e temperatura negativa não é sinônimo de frio-frio, o maior problema é o vento. Esse sim é o maior vilão que faz você quase “pedir pra sair”.
  • Quem tiver “ouvidos pra escutar”, preste atenção no som que o floco de neve emite ao cair e se juntar com as outras – É sublime. Recomendo também sentir uma nevasca no corpo (blizzard, como dizem por aqui). Procure um resort de ski e obviamente, vá bem protegido (reveja o ítem n.3)

 

Concluindo…

O inverno faz parte da natureza e é imprescindível saber lidar com o que a experiência nos trás.

No hemisfério norte, tudo ao redor entra numa fase de “preto, branco e cinza”. As árvores estão secas, as flores não existem mais até o alecrim murchou e a cor verde só é vista no começo de Março

Junta-se os dias curtos com o frio cortante e entramos sem perceber numa fase meio down onde tudo é escuro, frio e melancólico. A tendência é ficar mais quieto, fechado e curvado. A vida meio que perde o brilho e quando você se dá conta, o quadro depressivo se instalou.

É nessas horas que a resiliência (o quão você é capaz de superar um desafio) é exigida. Quando você “aguenta firme as ponta”, o desafio acaba ficando cada vez mais leve de lidar com o lidar dos anos.

E você, como é a sua relação com o frio? Como você lida com os desafios que a estação provoca? 

Amina Mafer

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Beijos e até a próxima!

Amina Transcendental
Você também quer conhecer a neve em New York com um roteiro na palma da sua mão? Conheça o Roteiro New York.Go com guias prontos pra você andar pela cidade – sem correr o risco de se perder!
Fontes:
http://www.coalitionforthehomeless.org/basic-facts-about-homelessness-new-york-city/
https://www.timeout.com/newyork/things-to-do/where-to-volunteer-homelessness
https://www.timeout.com/newyork/shopping/best-places-to-buy-a-winter-coat-in-new-york
http://coisasdigitais.com/sunn-light-lampada-inteligente-que-imita-o-sol/
https://www.timeout.com/newyork/blog/seven-ways-for-new-yorkers-to-shirk-seasonal-affective-disorder-011717

4 Comments

  1. monica jardin monica jardin

    Olá Amina,

    Delicioso de ler o seu relato, me lembrou de viagens que fiz á NY com seu clima invernal.Parabéns pela iniciativa de contar um pouco de suas impressões e pela luta de vida.Determinação, coragem e auto-confiança são fatores decisivos para o sucesso.

    Mitas vibrações positivas da Mônica

    • Amina Amina

      Oi Mônica!

      Obrigada pelo comentário! Sobreviver muitos anos no inverno de NY é uma tarefa hercúlea e quem não tem determinação, acaba aprendendo na marra! kkkkk

      Muitos beijos e obrigada pela presença sempre carinhosa 🙂

  2. Olá Amina,

    Que delicia de artigo! Fiquei sabendo que ontem deu uma super neve aí em NYC! Em pleno verão brasileiro você nos deixou com uma super vontade de se jogar na neve ou de curtir um filminho cheios de cobertores e chocolate quente!

    Obrigada pelas dicas conscientes de ajuda ao próximo! É importante termos consciência que mesmo em países desenvolvidos toda a ajuda é bem vinda!

    Beijos!!

  3. Amina Amina

    Olá Bianca! Obrigada pelo comentário!

    Você não imagina a saudade que estou do verão!! rsrs
    Sim e olha que lá em São Francisco, CA o índice de pessoas em situação de rua é 3x maior! é assustador pensar que em um país tão grande como esse, ver pessoas não tenham onde morar. Eu trabalhei numa ONG no ano passado com essas pessoas e o que vi, nunca mais vou esquecer. Espero contar um dia aqui no blog!

    Beijos e volte sempre!
    Amina

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